Hoje é dia em que a galera do Brasil inteiro volta os olhos em direção à Avenida Paulista. Pelo quinto ano consecutivo, a Prefeitura de São Paulo promove a Virada Cultural, evento que brinda os habitantes da maior cidade brasileira com 24 horas de eventos espalhados por todos os bairros, com direito a metrô e ônibus funcionando a madrugada inteira para transportar os paulistanos e os mais de 300 mil turistas que conferem as centenas de atrações que rolam por lá. Aí a gente se pergunta – o que falta aqui em Porto pra ter um evento desse porte?
Como tava falando uma amiga minha, via twitter, não é por falta de talento da gauchada que não acontecem essas coisas por aqui. Tem muito gaúcho, não só em São Paulo como no mundo todo, produzindo coisas muito legais. Mas, por algum motivo, acreditamos que a Virada Cultural porto-alegrense, se houvesse, seria meio tediosa.

Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre…
Bairrismo aqui é coisa que impera. Muitos conterrâneos lendo esse post devem se perguntar “mas que raio pretende esse guri pagando pau pra paulista?” – mas é que não tem comparação. Comparar uma metrópole de 18 milhões de habitantes com a nossa Porto dos Casais, que não chega a um milhão e meio, é covardia.

…e Avenida Paulista, em São Paulo – Covardia.
São Paulo fervilha dia e noite com gente de todos os cantos do país e do planeta. Mesmo para quem mora em São Paulo, conhecer todos os lugares da cidade é coisa muito difícil. Conhecer bem Porto Alegre é difícil também – eu conheço muita coisa, mas não conheço tudo (AINDA não fui ao Iberê, por exemplo, apesar do museu ser quase ao lado da minha casa), mas o que falta é vontade, vontade e infraestrutura.
Porto Alegre ainda não tem sistema de metrô, tem apenas planos recém saídos das mesas dos arquitetos, embora a discussão sobre a implantação seja de longa data. O sistema de ônibus é um dos melhores do país, mas além de poluir deveras, não cobre totalmente as necessidades das pessoas (eu tenho que pegar duas linhas de empresas diferentes pra ir à faculdade e não tem ônibus que me traga de volta até em casa – tenho que pegar um até a Avenida Padre Cacique e subir a pé a Taquari, que é uma lomba com uns 89º de inclinação), além de ser muito caro e por vezes desconfortável. Não digo que o metrô de São Paulo não seja desconfortável à hora do rush, mas fato é que os trens de lá são muito mais rápidos e ninguém paga nada a mais para fazer as conexões.
Quanto a lugares para eventos, temos alguns, o que não temos é ânimo para melhor aproveitá-los. A Usina do Gasômetro e o Cais do Porto são exemplos de lugares emblemáticos que, por muito tempo, não receberam eventos, mas que ultimamente têm aberto as portas para os mais variados tipos de espetáculo, desde a ótima Mostra Movimento e Palavra, espetáculo de dança que segue agora no dia 30 de maio na sala 209 da Usina, até os shows e festas que têm sido constantemente realizados no cais. Mas ainda não é o suficiente. Falta patrocínio, falta divulgação. Os locais com as melhores estruturas, como o Teatro do Sesi, o Bourbon Country e o Teatro São Pedro ainda são caros para a maior parte da população, que não os conhece. O Pepsi on Stage é distante do centro, o Opinião é muito pequeno, e por aí vai.
Vista clássica de Porto Alegre a partir do Cais
A produção de eventos é muito restrita a uma ou duas empresas que detém a imensa maioria dos espetáculos de grande porte, sempre divulgados nos mesmos veículos, para o mesmo público e pelas mesmas pessoas. Enche o saco. Tanto é assim que, para os profissionais de comunicação – sobretudo os jornalistas -, o mercado de Porto Alegre é tão restrito (há uma empresa, A Empresa, que manda – o resto é o resto), que vale mais a pena, depois de formado, ir para o interior ou sair para desbravar terras longínquas – e aqui São Paulo se destaca como polo de atração de profissionais da área.
Aí vem a questão que a gente levantou no Twitter: se os gaúchos são tão criativos lá fora, por que aqui em Porto Alegre a coisa não anda? Pelo mesmo motivo que leva o futebol europeu a ser mais valorizado que o brasileiro, apesar de termos os melhores jogadores, que leva o nome de Villa-Lobos a ser mais conhecido na Itália do que no Brasil e que leva nossos melhores acadêmicos a pesquisar no exterior – ninguém valoriza a cultura local no Brasil, e isso vem de séculos e é reproduzido dentro do país nos centros regionais em relação ao eixo Rio-São Paulo.
Não digo que tudo no sudeste seja perfeito, táxi paulistano é uma máfia e eu não confio nas PMs paulista e fluminense – na BM gaúcha eu confio de olhos fechados. Mas cabe à galera do Sul aquela reflexão sobre o que falta à província para as coisas começarem a acontecer por aqui. Até lá, infelizmente, eu vou passar os dias ruminando minha inveja em relação à Virada Cultural paulistana e procurando um apartamento perto da Paulista para me mudar de mala e cuia para lá assim que eu terminar a faculdade.